Capítulo 2: O Homem por Trás da Máscara
A mansão de Eugênio Plâncton Marajó erguia-se imponente no topo da Colina dos Privilegiados, o bairro mais exclusivo de Nova Recife. Com sua arquitetura neoclássica e jardins meticulosamente cuidados por uma equipe de doze jardineiros, a propriedade era um monumento à opulência – uma fortaleza de mármore e vidro que parecia observar com desdém as habitações mais modestas espalhadas pela capital deste território brasileiro na Europa.
Naquela manhã de domingo, enquanto a maioria dos cidadãos de Pernambuco de Pé se preparava para almoços familiares ou assistia a transmissões esportivas, Plâncton contemplava a cidade do terraço de sua suíte master. Vestia um roupão de seda azul-turquesa com suas iniciais bordadas em fio dourado no peito. Seus cabelos, ainda úmidos do banho matinal de uma hora, estavam cuidadosamente penteados no topete que se tornara sua marca registrada.
"Senhor, seu café da manhã está servido," anunciou Sebastião, o mordomo que o servia há mais de duas décadas.
Plâncton não respondeu imediatamente. Seus olhos permaneciam fixos na paisagem urbana, calculando, avaliando, como um predador estudando seu território de caça.
"Sebastião," disse finalmente, sem desviar o olhar, "você acha que sou amado pelo povo?"
O mordomo, treinado para manter compostura impecável diante de qualquer situação, hesitou por uma fração de segundo.
"O senhor certamente desperta fortes emoções nas pessoas," respondeu diplomaticamente.
Plâncton virou-se, um sorriso irônico nos lábios. "Sempre tão cuidadoso com as palavras. É por isso que ainda trabalha para mim depois de tanto tempo."
Dirigiu-se à mesa de café da manhã, onde uma refeição elaborada o aguardava – frutas importadas, pães artesanais, uma omelete preparada por seu chef particular. Ao lado do prato principal, três jornais cuidadosamente dispostos.
"Alguma notícia interessante hoje?" perguntou, sentando-se.
"O Jornal do Comércio traz uma análise de sua participação no debate de ontem, senhor. Página três."
Plâncton folheou o jornal até encontrar a matéria. Seu rosto endureceu ao ler a manchete: "PLÂNCTON EVITA PERGUNTAS SOBRE ORIGEM DE FORTUNA NO DEBATE PRESIDENCIAL".
"Lixo!" exclamou, atirando o jornal ao chão. "Quem é o editor-chefe desse pasquim?"
"Acredito que seja Ricardo Verdade, senhor."
"Verdade? Algum parentesco com aquele médico intrometido?"
"Irmãos, senhor."
Plâncton mastigou um pedaço de pão, seus olhos estreitando-se. "Interessante. Muito interessante. Ligue para Abutre. Diga que preciso dele aqui em uma hora."
Enquanto o mordomo se retirava para fazer a ligação, Plâncton pegou seu tablet e abriu um aplicativo de notícias. Sorriu ao ver que sua estratégia de inundar as redes sociais com conteúdo favorável estava funcionando – as manchetes negativas estavam sendo empurradas para baixo nas buscas, substituídas por histórias sobre sua "generosa doação" ao hospital infantil (cuidadosamente orquestrada para coincidir com o debate) e análises de comentaristas simpáticos à sua candidatura.
Seu telefone tocou – era Dra. Sanguessuga.
"Bom dia, Eugênio," disse ela, dispensando formalidades. "Viu as pesquisas desta manhã?"
"Ainda não tive tempo."
"Estamos empatados tecnicamente com Campos. O debate funcionou."
Plâncton sorriu, satisfeito. "Claro que funcionou. Eu o destruí."
"Na verdade, você cometeu vários erros factuais que estão sendo desmentidos esta manhã, mas isso não importa. O que importa é que você pareceu mais forte, mais decisivo. As pessoas não se lembram do que você disse, apenas de como você as fez sentir."
"E como eu as fiz sentir, Doutora?"
"Como se você fosse o único capaz de resolver seus problemas. Como se você entendesse sua raiva."
Plâncton riu, um som sem alegria genuína. "E eu entendo?"
"Claro que não. Você nunca precisou se preocupar com contas ou hipotecas. Mas você é um excelente ator, Eugênio. Quase me convenceu ontem."
Após desligar, Plâncton terminou seu café da manhã e dirigiu-se ao closet do tamanho de um apartamento médio. Hoje seria um dia importante – sua primeira aparição pública após o debate. Abutre havia insistido em uma visita a um bairro de classe média baixa, algo sobre "mostrar que você se importa com o povo comum".
Enquanto seu assistente pessoal separava ternos para sua aprovação, Plâncton refletia sobre sua trajetória. Nascido em berço de ouro, filho único de um magnata da construção civil, nunca conhecera privações. Sua educação nas melhores escolas particulares e posteriormente em universidades europeias havia sido pontuada não por conquistas acadêmicas, mas por escândalos cuidadosamente abafados pelo dinheiro paterno.
Quando herdou o império empresarial aos 30 anos, após a morte prematura dos pais em um acidente de helicóptero (investigação inconclusiva, caso arquivado), Plâncton não demonstrou o talento para negócios que seu pai possuía. Em vez disso, revelou-se excepcionalmente hábil em duas áreas: autopromoção e conexões políticas.
Em menos de uma década, transformou-se de "playboy herdeiro" em "empresário visionário" nas páginas de revistas de negócios – uma metamorfose facilitada por generosos investimentos publicitários nessas mesmas publicações. Paralelamente, cultivou amizades estratégicas com políticos de todos os espectros ideológicos, financiando campanhas e garantindo contratos governamentais lucrativos para suas empresas.
A decisão de entrar pessoalmente na política não foi motivada por ideais ou convicções. Foi puramente pragmática. Com a crescente pressão por transparência nas relações entre empresas e governo, Plâncton concluiu que seria mais eficiente eliminar o intermediário – tornar-se ele próprio o poder, em vez de apenas influenciá-lo.
Sua primeira tentativa, uma candidatura a deputado federal cinco anos antes, havia fracassado. O erro, concluiu posteriormente, foi tentar parecer um político tradicional, com propostas detalhadas e discursos moderados. O público não se entusiasmou.
Agora, com a orientação de Abutre, adotara uma abordagem radicalmente diferente: ser o anti-político. Atacar o sistema. Prometer mudanças drásticas. Falar o que muitos pensavam mas não ousavam dizer em voz alta. E, acima de tudo, nunca, jamais admitir erros ou demonstrar fraqueza.
O resultado estava nas pesquisas – de azarão a candidato viável em menos de seis meses.
Seu assistente interrompeu seus pensamentos: "Sr. Plâncton, qual destes o senhor prefere para hoje?"
Três ternos estavam dispostos sobre a cama. Todos impecavelmente cortados, todos caros, mas com sutis diferenças.
"Para onde vamos mesmo?"
"Bairro Esperança, senhor. Visita ao mercado municipal e depois um almoço com líderes comunitários."
Plâncton fez uma careta. "Aquele lugar cheira a peixe e desinfetante barato."
"Sim, senhor. O Sr. Abutre sugeriu o terno azul mais escuro. Diz que transmite seriedade mas não parece excessivamente caro nas fotografias."
"Abutre pensa em tudo, não é?" Plâncton examinou o terno indicado. "Mas não. Hoje usarei o azul-turquesa. Quero que se lembrem de mim."
O assistente hesitou. "O Sr. Abutre foi bastante específico sobre—"
"Eu pago o salário de Abutre, não o contrário," cortou Plâncton. "O azul-turquesa. E aquela gravata prateada."
Enquanto se vestia, Plâncton ensaiava mentalmente frases de efeito para usar durante a visita. "O povo de Pernambuco de Pé merece mais..." "Quando eu for presidente, este mercado terá..." "Meus adversários nunca pisaram em um lugar como este, mas eu..."
O interfone tocou. Sebastião anunciou a chegada de Jerônimo Abutre.
Plâncton encontrou seu estrategista na sala de estar principal, um espaço cavernoso decorado com obras de arte caras e troféus de suas conquistas – fotos com celebridades, prêmios empresariais, até mesmo uma bola de futebol autografada por um time campeão (comprada em leilão, não que ele mencionasse esse detalhe).
Abutre, como sempre, vestia-se inteiramente de preto – terno, camisa, gravata, sapatos. O único toque de cor era um pequeno alfinete de lapela vermelho, tão discreto que quase passava despercebido. Magro ao ponto da magreza, com cabelos grisalhos cortados rente ao crânio e olhos que pareciam absorver luz em vez de refleti-la, ele emanava uma aura de calculada precisão.
"Azul-turquesa," observou Abutre, sem cumprimentar. "Não foi o que recomendei."
"Bom dia para você também, Jerônimo," respondeu Plâncton com falsa jovialidade. "E sim, decidi que precisamos reforçar minha marca pessoal."
Abutre não insistiu no assunto. Em vez disso, consultou seu tablet. "Temos quarenta minutos até precisarmos sair. Vamos revisar os pontos principais para hoje."
Durante a meia hora seguinte, Abutre detalhou meticulosamente cada aspecto da visita – quem Plâncton deveria cumprimentar, quais barracas visitar no mercado, que tipos de perguntas esperar dos jornalistas, e mais importante, quais temas evitar a todo custo.
"Lembre-se," enfatizou Abutre, "nada de números específicos. Promessas vagas, grandes declarações de intenção, mas nunca se comprometa com valores ou prazos concretos."
"Sim, sim, já entendi," respondeu Plâncton, impaciente. "Não é minha primeira rodada neste jogo."
"E se perguntarem sobre o escândalo da Construtora Plâncton?"
"Digo que foi uma conspiração da mídia tradicional para me prejudicar porque tenho coragem de desafiar o sistema."
"E se insistirem nos documentos vazados?"
"Fake news. Documentos forjados. E rapidamente mudo de assunto para os empregos que criei ao longo dos anos."
Abutre assentiu, satisfeito. "Bom. Muito bom. Ah, mais uma coisa. Recebi informações de que um grupo de manifestantes planeja aparecer. Nada grande, talvez vinte pessoas com cartazes sobre aquele projeto habitacional que desmoronou."
Plâncton franziu o cenho. "Pensei que tínhamos resolvido isso com aquelas indenizações mínimas."
"Aparentemente, algumas famílias ainda estão... insatisfeitas."
"Ingratos," murmurou Plâncton. "E o que fazemos se eles aparecerem?"
"Já cuidei disso. O Coronel Tenaz organizou um grupo maior de apoiadores para abafá-los. Se algum manifestante conseguir se aproximar, nossa equipe de segurança intervém imediatamente. Oficialmente para 'sua proteção', claro."
"E extraoficialmente?"
Um sorriso fino e frio apareceu brevemente no rosto de Abutre. "Digamos que eles receberão uma lição sobre os riscos de perturbar a ordem pública."
Plâncton riu, genuinamente divertido. "Você é um homem perigoso, Jerônimo."
"Não, Eugênio. Sou apenas eficiente."
Enquanto isso, a poucos quilômetros dali, no modesto apartamento que dividia com dois colegas no bairro Universitário, Beatriz Coragem preparava-se para o que poderia ser a reportagem mais importante de sua jovem carreira.
Aos 24 anos, Beatriz já havia construído uma reputação como blogueira investigativa destemida. Seu blog, "Verdade Nua e Crua", começara como um projeto universitário três anos antes, mas rapidamente ganhara seguidores graças à sua abordagem direta e recusa em se curvar a pressões políticas ou econômicas.
Naquela manhã, ela revisava suas anotações e verificava o equipamento – uma câmera semiprofissional, gravador de áudio, notebook e, o mais importante, um pendrive contendo documentos que poderiam mudar o curso da eleição.
Seu telefone tocou. Era sua fonte, um ex-funcionário da Construtora Plâncton que preferia permanecer anônimo.
"Ele estará no Mercado Municipal às 11h," informou a voz tensa do outro lado da linha. "É sua chance."
"Estarei lá," confirmou Beatriz. "Tem certeza que esses documentos são autênticos?"
"Absoluta. Eu mesmo os digitalizei antes de ser demitido. Provam que Plâncton sabia dos problemas estruturais no Conjunto Habitacional Novo Horizonte meses antes do desabamento. Ele não apenas ignorou os relatórios técnicos, mas ordenou explicitamente que as obras continuassem para cumprir o prazo contratual."
"E as sete mortes? As dezenas de feridos?"
"Danos colaterais aceitáveis, nas palavras dele em uma reunião interna. Está tudo documentado."
Beatriz sentiu um arrepio. "Por que está me ajudando? Isso pode ser perigoso para você."
Um longo silêncio. "Minha sobrinha morava lá. Ela sobreviveu, mas perdeu a perna direita. Tem 9 anos."
Após desligar, Beatriz terminou de se preparar. Vestiu jeans, camiseta e uma jaqueta com bolsos internos onde poderia esconder o equipamento se necessário. Prendeu os cabelos cacheados em um coque prático e colocou óculos de armação grossa – parcialmente por necessidade (sua miopia era real), parcialmente como disfarce.
Antes de sair, enviou uma mensagem para sua professora e mentora, Maria Esperança: "Vou confrontar P hoje no mercado. Tenho as provas. Se não der notícias até às 14h, você sabe o que fazer."
A resposta veio quase imediatamente: "Tenha cuidado. Esses documentos não valem sua vida."
Beatriz sorriu tristemente. Maria sempre se preocupava demais. Mas desta vez, talvez tivesse razão em se preocupar.
No Mercado Municipal, a atmosfera era de expectativa. Funcionários municipais haviam aparecido cedo para limpar o local – algo que não acontecia há meses. Policiais em número incomum patrulhavam os corredores. Comerciantes haviam sido instruídos a "mostrar entusiasmo" quando o candidato aparecesse.
Em um café próximo, o Coronel Tenaz, vestido à paisana, dava instruções finais a um grupo de homens de aparência intimidadora.
"Lembrem-se, vocês são 'apoiadores espontâneos'," dizia ele, fazendo aspas no ar. "Gritem slogans positivos, abafem qualquer manifestação contrária. Se alguém persistir, vocês sabem o que fazer."
"E se houver jornalistas filmando?" perguntou um dos homens.
O Coronel sorriu friamente. "Acidentes acontecem no calor do momento. Câmeras quebram. Pessoas tropeçam. Entendido?"
Às 10:55, a comitiva de Plâncton chegou – três SUVs pretos com vidros escurecidos. Do veículo central, emergiu primeiro Jerônimo Abutre, escaneando o ambiente com olhos atentos. Satisfeito com o que viu, fez um gesto, e Plâncton saiu em seguida, sorrindo amplamente para as câmeras já posicionadas.
O azul-turquesa de seu terno destacava-se vividamente contra o cenário mais sóbrio do mercado. Imediatamente, o grupo organizado pelo Coronel Tenaz começou a gritar: "PLÂNCTON PRESIDENTE! PLÂNCTON PRESIDENTE!"
Comerciantes foram abordando o candidato, oferecendo amostras de produtos, tirando selfies, expressando apoio – uma coreografia cuidadosamente ensaiada que, para observadores casuais ou câmeras de TV, parecia espontânea.
Beatriz observava à distância, esperando o momento certo. Viu quando um pequeno grupo de manifestantes tentou se aproximar com cartazes denunciando o desabamento do conjunto habitacional, apenas para ser rapidamente cercado e isolado pelos "apoiadores" de Plâncton.
Sua oportunidade surgiu quando o candidato parou em uma banca de frutas. Aproximou-se como se fosse apenas mais uma cliente, posicionando-se estrategicamente no caminho que ele seguiria em seguida.
Quando Plâncton passou por ela, Beatriz deu um passo à frente, gravador ligado, câmera escondida mas funcionando.
"Sr. Plâncton, Beatriz Coragem do blog 'Verdade Nua e Crua'. Poderia comentar sobre estes documentos que provam seu conhecimento prévio dos problemas estruturais no Conjunto Habitacional Novo Horizonte?"
Ela ergueu seu tablet, mostrando a primeira página do relatório técnico com anotações manuscritas de Plâncton nas margens: "Ignore. Cumpra o prazo. Custos adicionais inaceitáveis."
Por um instante – um breve, revelador instante – a máscara caiu. Os olhos de Plâncton registraram choque, depois fúria. Suas narinas dilataram-se, e um músculo pulsou em sua mandíbula.
Então, tão rapidamente quanto havia desaparecido, a máscara voltou ao lugar. O sorriso carismático retornou, os olhos assumiram uma expressão de paciente condescendência.
"Ah, a famosa blogueira revolucionária," disse ele, em tom jovial. "Sempre com suas teorias conspiratórias. Esses documentos são obviamente falsificados, parte da campanha de difamação orquestrada pelo governo atual que teme perder seus privilégios."
"Falsificados?" insistiu Beatriz. "Sua própria caligrafia foi confirmada por três peritos independentes. E tenho depoimentos de ex-funcionários confirmando que o senhor ordenou pessoalmente—"
Não conseguiu terminar. Dois homens corpulentos surgiram ao seu lado, empurrando-a para longe. "O candidato precisa seguir sua agenda," disse um deles, enquanto o outro, "acidentalmente", esbarrou em seu braço com força suficiente para que o tablet caísse no chão.
Quando Beatriz se abaixou para pegá-lo, sentiu um pisão deliberado em sua mão. Sufocou um grito de dor.
Plâncton já seguia adiante, acenando para apoiadores, como se o incidente nunca tivesse ocorrido. Mas antes de se afastar completamente, virou-se e, por um segundo, seu olhar encontrou o de Beatriz. Não havia mais pretensão de cordialidade – apenas uma ameaça fria e calculada.
Naquele breve momento de contato visual, Beatriz viu claramente o homem por trás da máscara. E o que viu a aterrorizou mais do que qualquer ameaça física.
Horas mais tarde, de volta à mansão após o que a mídia amigável descreveria como "uma calorosa recepção popular", Plâncton convocou uma reunião urgente com seu círculo íntimo.
"Quero saber tudo sobre essa garota," exigiu, servindo-se generosamente de uísque. "Beatriz Coragem. Quem é ela? De onde vieram esses documentos? E mais importante, como fazemos para calá-la?"
Abutre, sentado em uma poltrona de couro com as pernas cruzadas elegantemente, consultou seu tablet. "Beatriz Coragem, 24 anos. Estudante de jornalismo na Universidade Nacional. Mantém um blog investigativo com crescente influência. Filha de classe média, bolsista parcial. Sem antecedentes criminais, sem escândalos pessoais que possamos explorar."
"Todo mundo tem algo a esconder," insistiu Plâncton.
"Estamos investigando mais a fundo," garantiu o Coronel Tenaz. "Mas enquanto isso, sugiro uma abordagem mais... direta."
"Que tipo de abordagem?" perguntou Plâncton, interessado.
"Acidentes acontecem todos os dias em Nova Recife. Assaltos, atropelamentos..."
A Dra. Sanguessuga, que até então observava em silêncio, interveio: "Não. Isso seria estúpido e desnecessário. Transformá-la em mártir só daria mais credibilidade às acusações."
"Então o que sugere, Doutora?" perguntou Plâncton, irritado.
"Desacreditá-la. Processá-la por difamação. Inundar as redes com 'evidências' de que os documentos são falsos. Comprar especialistas que atestem isso publicamente. Enquanto isso, descobrimos quem é a fonte dela e... neutralizamos essa pessoa."
Plâncton sorriu, satisfeito. "Sempre tão pragmática, Doutora. É por isso que gosto de você."
"Não se trata de gostar, Eugênio. Trata-se de eficiência."
A reunião continuou noite adentro, com estratégias sendo elaboradas, tarefas distribuídas, contingências planejadas. Em nenhum momento discutiu-se a veracidade das acusações ou a responsabilidade moral pelas mortes no desabamento. Tais considerações não tinham lugar naquela sala.
Quando todos se retiraram, Plâncton permaneceu sozinho com seus pensamentos e seu uísque. Caminhou até uma parede onde havia um grande espelho em moldura dourada. Examinou seu reflexo criticamente – o terno impecável, o topete perfeito, o sorriso ensaiado.
Por um momento, permitiu que a máscara caísse completamente. O sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de desprezo frio. Os olhos, normalmente animados para as câmeras, revelaram-se vazios de empatia, calculando apenas ganhos e perdas como um computador processando números.
"Presidente Plâncton," murmurou para seu reflexo, saboreando as palavras. "Tem um bom som."
Ergueu o copo em um brinde solitário. "Ao poder. O único deus que realmente existe."
E assim, enquanto a noite avançava sobre Pernambuco de Pé, o homem que aspirava governá-lo planejava sua próxima jogada, indiferente ao sofrimento que causara ou causaria. Para Eugênio Plâncton Marajó, pessoas eram peças em um tabuleiro, descartáveis quando necessário, úteis apenas enquanto servissem a seus propósitos.
A máscara do homem do povo estava firmemente no lugar para o público. Mas em privado, o verdadeiro rosto do poder revelava-se em toda sua fria e calculista realidade.