Capítulo 8: A Última Cartada
O crepúsculo caía sobre Pernambuco de Pé, pintando o céu em tons dramáticos de vermelho e laranja – uma metáfora visual apropriada para o regime em chamas. Nas ruas de Nova Recife, o que começara como protestos isolados havia se transformado em um levante popular generalizado. Barricadas improvisadas bloqueavam avenidas principais. Veículos militares abandonados, alguns ainda fumegantes, testemunhavam a rápida desintegração da autoridade governamental.
No centro de comando improvisado da resistência, Maria Esperança coordenava operações com a eficiência calma de uma líder nata. Mapas da capital e do complexo do Projeto Escorpião cobriam as paredes. Operadores de rádio transmitiam e recebiam mensagens constantemente, mantendo comunicação com células espalhadas por todo o país.
"Relatório final da Província Norte," anunciou um jovem operador. "Administração militar rendeu-se formalmente ao comitê cidadão. Todas as instalações governamentais sob controle popular."
Maria assentiu, marcando a província como "segura" em seu mapa. "E a situação no complexo do Escorpião?"
Beatriz Coragem, que coordenava especificamente essa operação crítica, consultou suas anotações mais recentes. "Nossas equipes estão posicionadas ao redor do perímetro externo. Detectamos presença de forças especiais americanas também se aproximando discretamente. Dentro do complexo, há relatos de confusão – alguns guardas e cientistas tentando implementar protocolos de destruição, outros resistindo."
"Precisamos entrar antes que algo catastrófico aconteça," decidiu Maria. "Estabeleça contato com os americanos se possível. Precisamos coordenar, não competir."
Enquanto Beatriz implementava essas instruções, Dr. Paulo Verdade entrou apressadamente na sala, ainda vestindo seu jaleco do hospital. "Notícias do Palácio Presidencial," anunciou, sua voz tensa de urgência. "Confirmado por múltiplas fontes: Plâncton escapou!"
Um silêncio atônito caiu sobre a sala. Após um momento, Maria recuperou a compostura. "Como isso é possível? Pensei que Abutre o tinha sob custódia."
"Aparentemente," explicou Paulo, "durante a transferência para um local mais seguro, o comboio foi atacado por um grupo de guardas ainda leais a Plâncton. Houve um tiroteio. Abutre está ferido, mas vivo. Plâncton e alguns guardas conseguiram escapar em um veículo blindado."
"Para onde?" perguntou Maria, já temendo a resposta.
"Testemunhas relatam que o veículo tomou a direção sul," respondeu Paulo gravemente. "Em direção ao complexo do Projeto Escorpião."
A implicação era clara e aterrorizante. Plâncton, encurralado e desesperado, dirigia-se para a única arma que poderia potencialmente mudar o jogo – mesmo que isso significasse consequências catastróficas.
"Quanto tempo temos?" perguntou Maria.
"Considerando a distância e possíveis bloqueios nas estradas devido aos protestos... talvez uma hora, no máximo."
Maria tomou uma decisão instantânea. "Beatriz, alerte todas as equipes no perímetro do complexo. Prioridade máxima: impedir a entrada de Plâncton a qualquer custo." Virando-se para outro operador: "Contate o Coronel Tenaz. Ele precisa saber que seu acordo com Abutre acaba de se complicar significativamente."
Enquanto ordens eram transmitidas, Maria puxou Paulo e Beatriz para um canto mais privado. "Preciso ir para lá pessoalmente," disse em voz baixa. "Se Plâncton realmente pretende usar o Escorpião como última cartada desesperada, precisamos de alguém que possa negociar – ou tomar decisões difíceis se a negociação falhar."
"É muito arriscado," protestou Paulo. "Você é o símbolo da resistência. Se algo acontecer com você—"
"Se Plâncton ativar aquela arma biológica, o que acontece comigo será irrelevante," interrompeu Maria. "Milhares, possivelmente milhões morrerão. E os americanos certamente responderão com força total."
Após um breve debate, ficou decidido: Maria lideraria uma pequena equipe diretamente para o complexo, enquanto Beatriz continuaria coordenando operações do centro de comando e Paulo organizaria equipes médicas para qualquer cenário.
Enquanto isso, a quilômetros dali, em um veículo blindado avançando rapidamente pela estrada sul, Eugênio Plâncton experimentava uma mistura volátil de emoções – fúria pela traição de seus assessores mais próximos, medo de captura, mas predominantemente uma determinação fria e calculista de não cair sozinho.
"Quanto tempo até o complexo?" perguntou ao motorista, um dos poucos guardas que permaneceram leais.
"Aproximadamente quarenta minutos, senhor Presidente. Estamos evitando rotas principais devido aos bloqueios."
Plâncton assentiu, verificando a pistola que havia tomado durante sua fuga. Ao seu lado, o Capitão Garra – um oficial de segurança fanático que idolatrava o Presidente – coordenava comunicações com outros guardas leais que haviam sido enviados à frente para garantir acesso ao complexo.
"Nossos homens já estão posicionados, senhor," relatou o Capitão. "Controlam a entrada principal e o centro de comando do complexo. Os cientistas foram... persuadidos... a preparar o sistema para ativação."
"Excelente," respondeu Plâncton, um sorriso frio formando-se em seu rosto. "E o dispositivo de comunicação global?"
"Preparado conforme suas instruções. Poderá transmitir sua mensagem para todas as principais redes de comunicação simultaneamente."
Plâncton recostou-se, momentaneamente satisfeito. Seu plano final – sua última cartada – estava em movimento. Se não pudesse governar Pernambuco de Pé, ninguém mais governaria. E o mundo aprenderia o preço de desafiar Eugênio Plâncton Marajó.
No Ponto Ômega, a casa segura onde o acordo de transição havia sido negociado horas antes, o Coronel Tenaz recebia notícias do escape de Plâncton com uma expressão impenetrável. Ao seu lado, Jerônimo Abutre, pálido e com o braço esquerdo improvisadamente enfaixado, parecia genuinamente alarmado.
"Ele vai para o complexo," disse Abutre, sua habitual calma profissional finalmente rompida. "Vai tentar ativar o Escorpião."
"Improvável que consiga," respondeu o Coronel, embora sem muita convicção. "Os protocolos de segurança requerem múltiplas autorizações."
"Protocolos que ele mesmo criou e potencialmente incluiu backdoors," lembrou Abutre. "Além disso, se ainda tem guardas leais no complexo..."
O Embaixador americano, que havia permanecido para finalizar detalhes do acordo de transição, interveio com urgência: "Precisamos alertar Washington imediatamente. Se houver qualquer indicação de ativação iminente do agente biológico, nossa força-tarefa tem ordens de executar ataques preventivos."
"Que destruiriam não apenas o complexo, mas potencialmente espalhariam o próprio agente," completou Abutre sombriamente.
O Coronel tomou uma decisão. "Tenho uma unidade de forças especiais ainda operacional e inequivocamente leal ao comando militar, não a Plâncton pessoalmente. Posso despachá-los imediatamente para interceptar e neutralizar a ameaça."
"Faça isso," concordou o Embaixador. "Enquanto isso, tentarei ganhar tempo com Washington. Mas sejam realistas – a janela para resolução interna desta crise está se fechando rapidamente."
Enquanto ordens eram transmitidas e forças mobilizadas, no complexo do Projeto Escorpião uma situação caótica se desenvolvia. O Dr. Vítor Consciência, cientista-chefe relutantemente responsável pelo desenvolvimento do agente biológico, encontrava-se em um dilema moral devastador.
"Não posso fazer isso," declarou ele aos guardas armados que o cercavam no laboratório principal. "Vocês não entendem o que estão pedindo. Este agente não foi projetado para uso real – era suposto ser apenas uma ameaça teórica, uma ferramenta de negociação."
O líder dos guardas, um tenente com olhos frios, apontou sua arma diretamente para a cabeça do cientista. "Suas objeções morais não são relevantes, Doutor. O Presidente Plâncton ordenou a preparação do sistema para demonstração limitada. Você tem dez minutos para iniciar os protocolos, ou sua assistente será a primeira a experimentar seus efeitos."
Ele indicou uma jovem cientista mantida sob guarda no canto do laboratório – Dra. Ana Verdade, ironicamente filha do Dr. Paulo Verdade da resistência, e uma das poucas cientistas que havia tentado ativamente sabotar o projeto de dentro.
O Dr. Consciência encontrou o olhar de Ana, vendo nele não medo, mas determinação. "Não faça isso, Vítor," disse ela firmemente. "Você sabe o que acontecerá se esse agente for liberado. Milhões morrerão, não apenas aqui, mas potencialmente ao redor do mundo."
O cientista-chefe fechou os olhos brevemente, o peso da decisão impossível esmagando-o. Quando os reabriu, havia uma resolução sombria em seu olhar. "Preciso de acesso ao terminal principal e à câmara de contenção. E preciso de minha equipe completa – este processo não pode ser executado por uma única pessoa."
O tenente sorriu friamente, interpretando isso como submissão. "Concedido. Mas qualquer truque, qualquer desvio do protocolo, e começaremos a eliminar sua equipe um por um."
Enquanto os cientistas eram escoltados para suas estações, Dr. Consciência conseguiu sussurrar discretamente para Ana: "Ganhe tempo. Ajuda está a caminho."
O que o tenente não sabia – o que mesmo Plâncton desconhecia – era que o Dr. Consciência havia secretamente implementado um protocolo de autodestruição no sistema. Um protocolo que destruiria o agente biológico sem liberá-lo, mas que também resultaria na destruição completa do complexo... e de todos dentro dele.
Era uma última opção desesperada, uma que esperava não precisar usar. Mas se Plâncton realmente pretendesse liberar o agente, o cientista estava preparado para fazer o sacrifício final.
Enquanto a tensão crescia dentro do complexo, três forças distintas aproximavam-se rapidamente de seus muros externos: a equipe de Maria Esperança, representando a resistência popular; a unidade de forças especiais do Coronel Tenaz, representando o que restava da autoridade militar legítima; e um pequeno esquadrão de operadores SEAL americanos, infiltrados secretamente com ordens de neutralizar a ameaça biológica a qualquer custo.
E aproximando-se pela estrada sul, o veículo blindado transportando Plâncton avançava inexoravelmente em direção ao confronto final.
Foi Maria quem chegou primeiro ao perímetro externo, encontrando-se com líderes das células de resistência já posicionadas estrategicamente ao redor do complexo.
"Situação?" perguntou ela, estudando a planta do complexo que um ex-funcionário de segurança havia fornecido.
"Guardas leais a Plâncton controlam as entradas principais e o centro de comando," relatou o líder da célula, um ex-militar que havia desertado meses antes. "Estimamos entre quinze e vinte homens armados no interior. Os cientistas estão sendo mantidos sob coação no laboratório principal, aparentemente preparando o sistema para algum tipo de ativação."
"Pontos fracos?"
"Há uma entrada de manutenção no setor leste, minimamente guardada. E um sistema de ventilação que poderia permitir acesso ao laboratório principal, embora seja um espaço extremamente apertado."
Maria considerou as opções rapidamente. Um assalto frontal seria suicida e poderia provocar exatamente o desastre que tentavam evitar. Infiltração discreta oferecia melhores chances, mas requeria tempo – tempo que talvez não tivessem.
Sua deliberação foi interrompida pela chegada silenciosa de um pequeno grupo de homens em uniformes de combate não identificados – os SEALs americanos.
"Professora Esperança," cumprimentou o líder da equipe em português fluente, embora com sotaque americano. "Comandante Jackson, Forças Especiais Navais dos Estados Unidos. Parece que temos objetivos alinhados neste momento."
Maria estudou o homem cuidadosamente. "Seus objetivos são neutralizar a ameaça biológica. Os nossos são salvar vidas – incluindo os cientistas e funcionários inocentes dentro do complexo."
"Não são mutuamente exclusivos," respondeu Jackson pragmaticamente. "Temos equipamento, treinamento e inteligência que podem complementar seus números e conhecimento local. Sugiro cooperação temporária."
Antes que Maria pudesse responder, outra complicação surgiu – a chegada da unidade de forças especiais enviada pelo Coronel Tenaz, liderada por um Major que Maria reconheceu de noticiários governamentais.
Por um momento tenso, os três grupos – resistência civil, forças especiais americanas e militares de Pernambuco de Pé – observaram-se mutuamente com desconfiança, armas não apontadas mas certamente prontas.
Foi o Major quem quebrou o impasse. "Professora Esperança, Comandante Jackson," cumprimentou formalmente. "Major Honra, 1ª Unidade de Operações Especiais. O Coronel Tenaz enviou-nos com ordens específicas: impedir que Plâncton acesse ou ative o Projeto Escorpião, e garantir a segurança do complexo até que inspetores internacionais possam assumir controle."
"Curioso," observou Maria ceticamente. "Considerando que até ontem, sua unidade estava prendendo e torturando membros da resistência."
O Major não desviou o olhar. "A situação mudou. O regime Plâncton acabou. Estamos agora sob comando constitucional interino, não sob ordens pessoais de Plâncton. Nossa prioridade é evitar mais derramamento de sangue e garantir uma transição ordenada."
Um tenso silêncio seguiu-se, quebrado finalmente pelo pragmatismo do comandante americano. "Sugiro que deixemos acertos de contas para depois. Temos aproximadamente..." ele consultou seu relógio, "vinte minutos antes que Plâncton chegue. E informações de inteligência indicam que o sistema está sendo preparado para ativação."
Maria tomou uma decisão rápida. "Cooperação temporária. Objetivos compartilhados: impedir ativação do agente biológico, capturar Plâncton, minimizar baixas civis. Concordam?"
Ambos os comandantes militares assentiram, e rapidamente um plano conjunto foi elaborado, combinando o conhecimento local da resistência, o equipamento avançado dos americanos e o treinamento específico das forças especiais locais.
Enquanto os três grupos se preparavam para a operação coordenada, o veículo blindado transportando Plâncton finalmente chegava ao perímetro externo do complexo. Guardas leais abriram rapidamente os portões, permitindo sua entrada sem impedimentos.
Dentro do laboratório principal, o Dr. Consciência implementava sua própria estratégia desesperada. Sob o olhar vigilante dos guardas armados, ele e sua equipe aparentemente seguiam os protocolos de preparação do sistema, mas secretamente introduziam modificações críticas que tornariam a liberação controlada do agente impossível.
"Status?" exigiu o tenente, observando impaciente os cientistas trabalhando em seus terminais.
"Sequência de preparação 60% completa," respondeu o Dr. Consciência, sua voz profissional mascarando o tumulto interno. "O sistema não foi projetado para ativação rápida. Há protocolos de segurança que não podem ser ignorados sem riscos catastróficos."
O tenente parecia prestes a responder quando as portas do laboratório se abriram e Eugênio Plâncton entrou, escoltado pelo Capitão Garra e mais dois guardas fortemente armados.
A transformação em Plâncton desde seus dias de glória televisiva era chocante. Seu rosto, antes cuidadosamente mantido para as câmeras, estava pálido e abatido. Olheiras profundas marcavam seus olhos, que agora exibiam um brilho febril quase maníaco. O tique nervoso em seu olho esquerdo havia se intensificado. Mesmo seu icônico terno azul-turquesa estava amarrotado e manchado.
Mas apesar de sua aparência deteriorada, sua presença ainda emanava uma autoridade perturbadora – a aura de um homem que havia cruzado todas as linhas possíveis e não tinha mais nada a perder.
"Dr. Consciência," cumprimentou ele com falsa cordialidade. "Confio que meu projeto favorito esteja pronto para sua grande estreia mundial?"
O cientista manteve sua expressão neutra com esforço considerável. "O sistema está sendo preparado, senhor Presidente. Mas devo enfatizar novamente os riscos de uma demonstração não controlada. Este agente foi projetado como dissuasão teórica, não para uso prático. Mesmo uma liberação limitada poderia ter consequências imprevisíveis e potencialmente catastróficas."
Plâncton sorriu – um sorriso frio que não alcançava seus olhos. "Suas preocupações são notadas, Doutor. Mas irrelevantes. O mundo precisa entender que não se brinca com Eugênio Plâncton. Se não posso governar Pernambuco de Pé, ninguém governará."
Ele caminhou até o terminal principal, observando as telas com interesse clínico. "Quanto tempo até que o sistema esteja pronto para ativação?"
"Aproximadamente trinta minutos para conclusão dos protocolos de segurança," respondeu o cientista, tentando ganhar tempo.
"Inaceitável," cortou Plâncton. "Acelere o processo. Ignore protocolos secundários se necessário."
"Senhor, isso poderia resultar em—"
"Faça. O. Que. Ordenei." Cada palavra foi pronunciada com uma intensidade gelada que não permitia argumentação.
Enquanto esta confrontação ocorria no laboratório, a operação conjunta para infiltrar o complexo havia começado. Utilizando equipamento de visão térmica fornecido pelos americanos, a equipe identificou padrões de movimento dos guardas e pontos fracos no perímetro interno.
Uma pequena equipe de infiltração – composta por dois SEALs americanos, dois operadores das forças especiais locais e Maria Esperança insistindo em participar pessoalmente – conseguiu acessar o complexo através do sistema de ventilação identificado anteriormente.
Simultaneamente, equipes da resistência e militares posicionaram-se estrategicamente ao redor do complexo, prontos para criar diversões coordenadas quando necessário ou responder a qualquer tentativa de fuga.
Dentro do sistema de ventilação estreito e sufocante, Maria seguia os operadores militares em silêncio tenso. Apesar de sua determinação, não podia evitar questionar a sabedoria de sua insistência em participar diretamente. Mas algo lhe dizia que, quando o momento crítico chegasse, seria necessária uma voz civil – alguém que pudesse falar não com autoridade militar, mas com a autoridade moral da resistência popular.
Após minutos que pareceram horas, rastejando através de dutos empoeirados, a equipe finalmente alcançou uma grade de ventilação que oferecia visão direta do laboratório principal. Através dela, podiam ver Plâncton, os guardas armados, e os cientistas trabalhando sob coação.
"Cinco guardas visíveis no laboratório," sussurrou um dos SEALs, observando através de um dispositivo óptico miniaturizado. "Plâncton no terminal principal. Cientistas aparentemente cooperando, mas linguagem corporal sugere relutância."
"Podemos neutralizar os guardas?" perguntou Maria.
"Afirmativo, mas não sem risco para os civis," respondeu o operador das forças especiais locais. "Precisamos de distração para separar guardas de reféns."
Como se respondendo a esta necessidade, um alarme súbito soou no complexo – não o alarme de intrusão que temiam ter acionado, mas um alarme de sistema.
No laboratório, Plâncton virou-se furiosamente para o Dr. Consciência. "O que é isso?"
O cientista manteve uma expressão de preocupação profissional. "Falha de contenção no subsistema três. Provavelmente resultado da aceleração forçada dos protocolos. Precisamos estabilizar imediatamente ou arriscamos perda completa do agente."
Era uma mentira, claro – parte da estratégia do cientista para ganhar tempo e criar confusão. Mas Plâncton não tinha conhecimento técnico para detectar o engodo.
"Resolva isso!" ordenou.
"Preciso acessar a câmara de contenção secundária," respondeu o cientista. "E preciso de pelo menos dois assistentes."
Após um momento de hesitação, Plâncton assentiu para o tenente, que designou dois guardas para escoltar o Dr. Consciência e dois outros cientistas para a câmara adjacente.
Era exatamente a distração que a equipe de infiltração precisava. Com guardas e reféns agora divididos entre dois ambientes, as chances de uma operação bem-sucedida aumentavam significativamente.
Rapidamente, um plano foi formulado através de gestos silenciosos. Os operadores militares se dividiriam – dois para o laboratório principal, dois para a câmara secundária. Maria permaneceria inicialmente na ventilação como observadora e comunicadora.
O que se seguiu foi uma demonstração impressionante de precisão militar. No momento exato em que um dos cientistas "acidentalmente" derrubou um equipamento ruidoso na câmara secundária, atraindo a atenção completa dos guardas, os operadores emergiram silenciosamente das ventilações em ambas as salas.
No laboratório principal, os dois guardas restantes foram neutralizados com eficiência letal antes que pudessem reagir. Simultaneamente, na câmara secundária, os outros dois operadores subjugaram os guardas com igual eficiência, embora um conseguisse disparar um único tiro antes de ser silenciado – um tiro que felizmente não atingiu nenhum dos cientistas.
Plâncton, momentaneamente distraído pelo som do tiro distante, virou-se para encontrar-se face a face com um operador SEAL americano apontando uma arma diretamente para sua cabeça.
"Não se mova," ordenou o operador em português fortemente acentuado.
Por um momento, pareceu que a operação havia sido um sucesso completo e surpreendentemente fácil. Então, com a velocidade desesperada de um homem sem nada a perder, Plâncton sacou sua própria arma e agarrou a cientista mais próxima – Ana Verdade – como escudo humano.
"Abaixem suas armas ou ela morre!" gritou, pressionando o cano da pistola contra a têmpora da jovem cientista.
Um impasse tenso estabeleceu-se instantaneamente. Os operadores militares, treinados para tais cenários, mantiveram posições, armas apontadas mas sem atirar – o risco para a refém era alto demais.
Foi neste momento crítico que Maria Esperança emergiu da ventilação, desarmada e com as mãos visíveis. "Acabou, Plâncton," disse ela calmamente, avançando lentamente para o centro do laboratório. "Seu regime caiu. Suas forças renderam-se. O país inteiro está nas ruas celebrando sua queda. Não há mais para onde fugir."
Plâncton riu – um som áspero, quase histérico. "Sempre a professora, não é, Maria? Sempre achando que sabe mais que todos. Mas você está errada. Isto não acabou. Isto apenas começou."
Mantendo Ana firmemente como escudo, ele recuou em direção ao terminal principal. "Sabe o que acontece quando este botão é pressionado? O agente Escorpião é liberado em sua forma aerossolizada. Primeiro neste complexo. Depois, através de sistemas de dispersão pré-posicionados, em Nova Recife. E finalmente, através de agentes dormentes, em capitais ao redor do mundo."
"Você mataria milhões apenas para provar um ponto?" perguntou Maria, continuando a avançar lentamente, ignorando os gestos urgentes dos operadores militares para recuar.
"Para provar que ninguém brinca com Eugênio Plâncton," respondeu ele, seu dedo pairando perigosamente sobre o botão de ativação. "Para garantir que, mesmo na derrota, meu nome será lembrado por gerações."
Maria parou, agora a apenas alguns metros de Plâncton e sua refém. Seus olhos encontraram brevemente os de Ana – a jovem cientista aterrorizada mas ainda assim demonstrando uma coragem notável.
"Seu nome já será lembrado, Plâncton," disse Maria suavemente, quase como se estivesse acalmando uma criança perturbada. "Será lembrado como um aviso – um lembrete do que acontece quando permitimos que ambição e ego substituam humanidade e compaixão."
Enquanto falava, notou um movimento quase imperceptível atrás de Plâncton – o Dr. Consciência havia retornado silenciosamente ao laboratório principal e aproximava-se discretamente por trás.
"Mas ainda há uma escolha," continuou Maria, mantendo Plâncton focado nela. "Você pode ser lembrado como o homem que, no último momento, escolheu a redenção sobre a destruição total. O homem que, confrontado com a derrota, mostrou finalmente um vislumbre da humanidade que alegava representar."
Por um momento – um breve, quase imperceptível momento – algo pareceu vacilar nos olhos de Plâncton. Uma hesitação, talvez até um lampejo de dúvida.
Foi tudo que o Dr. Consciência precisava. Com um movimento rápido e preciso, ele injetou algo no pescoço de Plâncton – um sedativo poderoso que mantinha no laboratório para emergências.
Plâncton gritou de surpresa e dor, sua arma disparando reflexivamente – mas para cima, não contra sua refém. Em segundos, o sedativo começou a fazer efeito. Sua mão afrouxou, permitindo que Ana se libertasse. Ele cambaleou, tentando ainda alcançar o terminal de ativação, mas suas pernas cederam antes que pudesse chegar lá.
Os operadores militares avançaram instantaneamente, subjugando-o completamente enquanto ele lutava cada vez mais fracamente contra o sedativo.
"Vocês... não entendem..." murmurou, suas palavras já arrastadas. "Eu... sou... Pernambuco de Pé..."
Foram suas últimas palavras antes que o sedativo o levasse à inconsciência completa.
Um silêncio atordoado caiu sobre o laboratório, quebrado finalmente pelo Dr. Consciência. "O sistema ainda está em estado crítico. Precisamos implementar protocolos de neutralização imediatamente."
Enquanto os cientistas trabalhavam freneticamente para garantir que o agente biológico fosse permanentemente neutralizado, Maria aproximou-se de Ana, que tremia visivelmente após sua provação.
"Você está bem?" perguntou gentilmente.
A jovem cientista assentiu, tentando recuperar a compostura. "Meu pai... ele está..."
"Vivo e bem," assegurou Maria. "Coordenando equipes médicas para qualquer eventualidade. Ele ficará muito feliz em saber que você está segura."
Nos minutos seguintes, o resto do complexo foi assegurado sem resistência significativa. A maioria dos guardas restantes rendeu-se ao saber que Plâncton havia sido capturado. Aqueles que tentaram resistir foram rapidamente subjugados pelas forças combinadas que agora controlavam o perímetro.
Plâncton, ainda inconsciente, foi transferido para custódia militar sob supervisão internacional – o primeiro passo no que seria eventualmente seu julgamento por crimes contra a humanidade.
Enquanto o sol começava a nascer sobre Pernambuco de Pé, Maria saiu do complexo para encontrar uma cena surpreendente: centenas de cidadãos comuns haviam se reunido além do perímetro de segurança, tendo seguido notícias da operação através da rede de comunicação da resistência.
Quando a viram emergir, um rugido espontâneo de celebração ergueu-se da multidão. Cartazes improvisados proclamavam "Liberdade" e "Democracia Restaurada". Pessoas abraçavam-se, choravam, riam – a catarse coletiva de uma nação finalmente libertada de seu opressor.
Maria observou a cena com uma mistura de emoções – alívio, exaustão, mas predominantemente uma sensação agridoce de triunfo. A tirania havia sido derrotada, mas a um custo terrível. Vidas perdidas. Famílias destruídas. Instituições corrompidas. A reconstrução seria longa e difícil.
Beatriz Coragem, que havia chegado com reforços da resistência, aproximou-se de Maria. "Acabou mesmo?" perguntou, sua voz misturando descrença e esperança.
Maria observou o nascer do sol pintando o céu em tons de esperança sobre o território brasileiro na Europa. "O regime de Plâncton acabou," respondeu cuidadosamente. "Mas nossa verdadeira tarefa apenas começa. Reconstruir é sempre mais difícil que destruir."
Enquanto as duas mulheres contemplavam o futuro incerto mas cheio de possibilidades, notícias da queda de Plâncton espalhavam-se como fogo por todo Pernambuco de Pé e além. A última cartada do tirano havia falhado. Sua máscara de poder finalmente havia caído completamente, revelando não o grande líder que alegava ser, mas apenas um homem comum consumido por ambição e ego desmedidos.
Em capitais ao redor do mundo, líderes observavam atentamente os eventos em Pernambuco de Pé – alguns com alívio genuíno pelo fim pacífico de uma crise potencialmente catastrófica, outros com preocupação calculista sobre as implicações para seus próprios regimes autoritários.
Mas para os cidadãos comuns de Pernambuco de Pé, reunidos nas ruas em celebração espontânea, política internacional era a última coisa em suas mentes. Após meses de medo, opressão e privação, podiam finalmente respirar livremente novamente. Podiam falar sem medo. Podiam sonhar com um futuro melhor.
A longa noite havia terminado. Um novo dia amanhecia para Pernambuco de Pé.